Cresci a ouvir frases como “lá para cima não há nada” ou “isto está condenado a ficar vazio”. Sempre
me soaram a sentença dita à pressa por quem nunca ficou tempo suficiente para ouvir o que o silêncio
dizia. O Interior, para muitos, era um lugar de passagem; para mim, era casa e pergunta ao mesmo tempo.
Durante anos, vi as histórias daqui contadas de fora para dentro: em notícias rápidas, em peças que
vinham em busca do “exótico”, em narrativas que oscilavam entre a miséria e o postal idílico. Nem uma
coisa nem outra dava conta do que eu via nos rostos das pessoas com quem cresci. Faltava densidade,
faltava responsabilidade, faltava cuidado.
O PortalTransmontano nasce desse incómodo. De uma necessidade quase física de criar um lugar onde o
Interior pudesse falar por si, com o tempo e a dignidade que merece. Um espaço em que quem vive, quem
trabalha, quem resiste, possa aparecer em primeiro plano — não como figurante ocasional, mas como
protagonista de uma história em andamento.
A decisão de fazer deste projeto um manifesto digital não é apenas técnica; é política e afectiva.
Acredito que a forma como mostramos o Interior influencia a forma como o país o imagina — e, por
consequência, as decisões que toma em relação a ele. Se o olharmos apenas como problema, tratá-lo-emos
como fardo. Se o olharmos como possibilidade, talvez consigamos construir futuro em vez de preparar
despedidas.
Escolhi o caminho mais difícil: não vender uma imagem fácil, não ceder à estética vazia, não aceitar
narrativas prontas. Preferi a rota das conversas longas, do frio nas mãos a meio da reportagem, da
estrada que se faz devagar. E quis que tudo isso se traduzisse na forma: numa linguagem visual que
honrasse a densidade do território, num ritmo editorial que respeitasse o tempo de quem vive as
histórias que contamos.
Esta carta é menos um “sobre mim” e mais um convite: a olhar para o Interior com outros olhos, a
escutar com mais atenção, a acreditar que há futuro onde muitos apenas veem ausência. Se o
PortalTransmontano conseguir, ainda que um pouco, deslocar o olhar sobre este território, então valeu
a pena cada noite a ajustar detalhes, cada dúvida, cada tentativa.
Obrigado por leres até aqui. O resto desta história não se escreve sozinho: escreve-se contigo, com
quem lê, com quem partilha, com quem decide ficar ou voltar.
Rúben Caldeiras
Criador do PortalTransmontano